Dependente de crack destrói apartamento herdado para comprar droga em Santa Catarina

19 Abril 2010  |  Publicado por Editor BRAHA em Cultura das Drogas


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Viciado desde a adolescência, Fabiano está em tratamento pela 16ª vez

Por Daniela Pereira  -  daniela.pereira@santa.com.br

O enfeite de Natal na porta de entrada é o último sinal de dignidade no apartamento de classe média alta do Centro de Blumenau, no Norte de Santa Catarina. O chão está coberto de roupas, papéis, sacolas, latas retorcidas, isqueiros, cachimbos improvisados e caixas de remédios tarja preta. O painel de madeira, que separava sala, cozinha e quartos, foram arrancados com picaretas, deixando tijolos e cimento à mostra.

Nas paredes, há desenhos e inscrições bíblicas. Um fogão com marcas de queimado e o que sobrou de uma pia dividem espaço na cozinha com panelas usadas e restos de comida. No sexto andar do prédio, até a sacada está cheia de entulhos.

O último morador, um homem de 37 anos, transformou o imóvel que herdou dos pais em ponto de consumo de crack.

— Comecei a destruir o apartamento para comprar droga. Tentei alugar para umas meninas (garotas de programa), mas elas não me aguentaram. Depois, ganhava crack para deixar outras pessoas usarem o apartamento para consumo. Vendi móveis, arranquei a madeira das prateleiras, acabei com o que eu tinha — conta Fabiano, dependente químico desde a adolescência.

Foi a pior besteira que fiz na vida

Depois da morte do pai, em 2006, e da mãe, em 2008, e de ser abandonado pela mulher e os dois filhos, que foram morar no Paraná com a família dela, Fabiano procurou ajuda no Centro Terapêutico Vida, em Blumenau. Há um mês se submete a tratamento.

A primeira coisa que fez, ao se internar, foi ligar para os filhos de seis e oito anos para prometer que em breve vai reencontrá-los, desta vez saudável. Quando fala dos meninos, chora.

No apartamento onde morou até o início de março, as únicas lembranças dos pequenos são fotos coladas na parede e uma camiseta branca do primogênito pendurada num cabide do quarto destruído.

Apesar de a dependência ao crack ter se agravado desde que ficou sozinho no apartamento, a história do envolvimento com as drogas vem da adolescência. Aos 16 anos, Fabiano fumou maconha pela primeira vez. Aos 17, foi apresentado à cocaína por uma universitária, em São Paulo. Aos 27, encontrou o crack no litoral catarinense.

— Foi a pior besteira que fiz na vida. Na adolescência, queria curtir a emoção, a adrenalina que a droga me dava. Me sentia uma estrela. Chegar ao crack foi fácil, uma coisa leva à outra.

Nem carteira de trabalho eu tenho

Paulista, de uma família de classe média alta, Fabiano estudou nos melhores colégios de São Paulo. Foi educado para se tornar um empresário. Mas não foi o que caminho que escolheu. A mãe era frequentemente chamada na escola pela indisciplina do filho do meio. Os outros dois se afastaram e já não têm mais contato com o irmão.

Depois que terminou o Ensino Médio, Fabiano trocou o dia pela noite, bebendo e usando drogas. Nem o surfe, praticado desde menino, resistiu ao álcool e à cocaína.

Na mudança de São Paulo para Santa Catarina, a dependência veio junto. A ex-companheira também era viciada em cocaína. Mudou-se para o Paraná para buscar apoio da família para o tratamento. Atualmente, segundo Fabiano, ela está limpa. A família internou Fabiano 15 vezes para reabilitação. Quando saía das clínicas, arrumava emprego, mas recaía.

— Nunca consegui ficar mais de dois meses num emprego. Nem carteira de trabalho eu tenho. Fiz um curso de dedetização e trabalhava por minha conta, mas só quando queria ou precisava de dinheiro.

Com o crack, o único resultado é a morte

Antes da internação no Centro Terapêutico Vida, há um mês, Fabiano achou que iria morrer. Chegou a consumir 30 pedras de crack por dia. A agitação dos primeiros anos de consumo da pedra, conta ele, transformou-se em angústia e medo. Dois meses antes de chegar à clínica, sonhou com o Diabo:

— Ele me disse que eu já tinha aprendido tudo o que era ruim e que agora ele queria minha vida. Depois só vi uma luz. Achei que era Deus me dando um sinal. Desde daquele dia fui atrás de ajuda.

Fabiano foi atrás de padres e pastores, até que chegou ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Fez entrevistas e conseguiu uma vaga para tratamento.

Hoje, o homem de 37 anos, que passou os últimos 10 anos consumindo crack, diz que está num lugar abençoado e fará de tudo para recomeçar a vida longe das drogas. Ele ficará internado por nove meses.

— Aprendi que o crack é igual brincar de roleta russa. É perigoso, mas emocionante. Depois, o único resultado é a morte.

Fonte: http://zerohora.clicrbs.com.br/especial/sc/cracknempensar/19,0,2873789,Dependente-de-crack-destroi-apartamento-herdado-para-comprar-droga-em-Santa-Catarina.html


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