O Problema do Tóxico

7 Outubro 2008  |  Publicado por Editor BRAHA em Drogas Psicoativas, Para os Educadores, Para os Pais


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O tóxico é, no momento, em muitos países problema de relevante importância. Tem-se discutido bastante a respeito do tema, principalmente revistas e jornais, que exploram o assunto com variado intuito, inclusive o sensacionalista.

Ultimamente, em nosso país, temos ouvido muito sobre o problema e também recebido literatura de países como o Estados Unidos da América do Norte, onde a situação nos parece bastante séria. 

Como qualquer questão, a do tóxico deve ser comentada nos seguintes aspectos:
- Origem
- Evolução e Importância
- Solução

Temos acompanhado alguns estudiosos do assunto e ouvimos conferências a respeito. Felizmente, no Brasil, o problema ainda não assumiu proporções alarmantes. Este fato não nos deve tranqüilizar em demasia, fazendo com que permaneçamos à margem da situação sem tornarmos atitude convincente para a sua solução.

A solução no momento é difícil e vai exigir trabalho intenso. Mesmo com programa bem planejado, acreditamos que só a longo prazo ela poderá vir.

Para nós, a resolução total não está nas campanhas e ligas antitóxicas. É evidente que estas desempenham papel importante no sentido de evitar a propagação do mal, visando, de modo especial, aos inocentes, que sem se aperceberem, são envolvidos pelos viciados inescrupulosos. Então, as campanhas de esclarecimento em instituições educacionais, orientando estudantes, professores e funcionários, impedem a propagação do vício nesses ambientes. Mesmo nesses locais, a luta contra o tóxico deverá ser criteriosa e feita de modo a não despertar o interesse pelo seu uso.

Nesses estabelecimentos, indivíduos especializados precisam esclarecer aos estudantes, professores e funcionários a respeito do mal que as drogas podem causar ao organismo.

As explicações devem ter caráter informativo e serem colocadas em programas de higiene ou de saúde pública; como meta da saúde pública deverá ter bases científicas e nunca serem expostas com cunho de moralidade ou de fruto proibido.

Como a juventude aceita facilmente a ciência, rejeitando tudo que é moralístico e autoritário (rejeição ao tipo de educação recebida), estas últimas formas de expor o problema tornam-se perigosas por levarem o jovem ao uso de tóxicos como forma de auto-afirmação e de rejeição aos princípios recebidos. Esta problemática tem toda sua explicação baseada na existência de substrato inconsciente, que age como motivação imperceptível de nossas condutas. 

Ponto de extraordinária importância é o que se refere ao fato de muitas palestras serem feitas em ambientes não adequadamente preparados para exposição de assuntos desta natureza.

Nós nos referimos aos comentários e conferências feitas a jovens, tais como os que se encontram em lares e associações filantrópicas diversas. Nesses locais, os perigos a que nos reportamos são maiores. As crianças e jovens que vivem em tais lugares, por si já se sentem marginalizados e, portanto, predispostos a aderirem aos mais variados vícios. A palestra, nestes casos, pode servir para chamar atenção para os tóxicos, visto que, ao ensinarmos, não resolvemos os problemas intrínsecos de cada um.

Nestes casos, deverá haver técnica indireta para tratar o problema e conscientizá-lo adequadamente.

Para conseguirmos tal objeto, necessitamos educar, primeiramente, o corpo docente dos colégios, escolas superiores e diretorias de orfanatos, orientando-os detalhadamente a respeito dos tóxicos e outros vícios. Conhecemos jovens internados em hospitais de psiquiatria que chegaram a cultivar maconha dentro do hospital.

Em outro grupo de jovens internados em nosocômio psiquiátrico, sempre havia um deles fugindo à noite para buscar psicotrópicos, maconha, cocaína, etc, que usavam clandestinamente durante o dia ou à noite dentro do hospital. Freqüentemente, funcionários introduzem, nos hospitais, bebidas alcoólicas destinadas a doentes internados, como já tivemos oportunidades de surpreender algumas vezes em hospitais de São Paulo. Precisamos identificar bem os funcionários de estabelecimentos que lidam com jovens e aqueles portadores de patologia mental, as personalidades psicopatas que inúmeras vezes funcionaram como veículos de distribuição de tóxicos, devem ser impedidos de exercerem qualquer função nesses locais. Tais indivíduos precisam ser afastados de qualquer maneira de ambientes escolares, mesmo de escolas superiores.

Se considerarmos a evolução do uso dos tóxicos, verificaremos que o seu aumento é significante, e que cada vez mais se alastra nas populações jovens.

Há pouco tempo, tomamos conhecimento de que a população norte-americana ficara estarrecida ao ver em seus vídeos, uma criança de 8 anos “autuada em flagrante” como viciado e traficante de cocaína. Tivemos oportunidade de constatar e analisar, em nosso consultório, um menino de 5 anos que fumava um maço de cigarros por dia. Verificamos que tal criança não tinha contato com outras da mesma idade, e a convivência somente com adultos levou-a à imitação dos mesmos, até no ato de fumar. Poucos dias após, foi-nos levada uma menina de 7 anos, que consumia razoável quantidade de cerveja por semana. Quando estudante, tivemos ensejo de tratar uma criança que tomava vários aperitivos ao dia, constituídos de puro aguardente.

Quais seriam as causas de tais vícios? Estariam eles ligados a fatores ambientais ou físicos? Seriam determinados por fases transicionais da vida, como é a adolescência? O indivíduo seria viciado aos poucos, sem perceber, e, depois tornar-se-ia capaz de se libertar do vício? Teriam tais problemas origem remota? Estariam eles ligados à infância? Em caso afirmativo, qual seria a melhor solução?

Para nós, combater o vício ou o viciado não é a melhor solução. O viciado é apenas o terreno onde germina a semente do vício. A personalidade do viciado está predisposta ao vício. É o terreno propício para crescer a erva daninha do LSD, da maconha, do ópio, da cocaína, do álcool, etc. O que precisamos é modificar o terreno para que ele não tenha “nutrientes” que possibilitem a germinação da semente do vício.

Se queremos plantar arroz, temos que escolher terreno adequado para o plantio especificado. Caso o terreno não seja bom para semear, teremos de modificá-lo com adubos, alterando sua topografia ou suas drenagens para que o cultivo seja possível. No deserto também se pode cultivar; mesmo o terreno mais impróprio, se cuidadosamente zelado, poderá produzir alguma coisa. Também as pessoas geneticamente predispostas ao vício poderão ser desviadas dele se forem corretamente educadas.

Como o indivíduo poderá ser levado ao vício? Como ele poderia ser levado à delinqüência?

Muitos caminhos são possíveis, talvez, mas um se mostra para nós o mais provável.

Analisemos a criança desde o seu nascimento até a vida adulta.

O recém-nascido, quando tem fome, reclama seu alimento. Assim é que lactente, ao chegar a hora de mamar, chora, grita desesperadamente, até que a mamadeira lhe seja dada e sua fome saciada. Se tem sede, também não quer esperar um minuto; apenas deseja matar sua sede imediatamente. Não há agrado que o faça esperar, não há explicações que o convençam da demora. Mesmo a criança maior, quando deseja algo, não quer saber dos motivos que nos impede de atendê-la.

Uma criança de dois anos quer um pirulito; no instante em que ela faz o pedido, começou a chover. Por mais que lhe expliquemos que está chovendo, que não há guarda-chuva em casa, que não é possível sair para comprar o pirulito, ela não se convence, nem aceita explicação. Ela quer o pirulito e continua insistindo. 

Autor: Dr. Adolpho Menezes de Mello
Fonte: Revista Pais & Filhos

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