Ecstasy: muito longe de ser inofensivo

7 Outubro 2008  |  Publicado por Editor BRAHA em Drogas Psicoativas, Medicina & Saúde


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Segundo pesquisa da Unifesp, usuários da droga afirmam que seu efeito seria mais leve que o de outros entorpecentes. Trata-se de um perigoso engano 

Uma pastilha que parece aspirina, cabe no bolso e não desperta muitas suspeitas. Seu uso não necessita de grandes rituais.

Sem chamar a mesma atenção que um cigarro de maconha ou uma carreira de cocaína, basta ingeri-la para que o mundo fique cor-de-rosa. É por ser discreto e aparentemente inofensivo que o ecstasy é apontado por 65,6% dos usuários pesquisados pelo psicólogo Murilo Baptista como ‘uma droga segura’. A realidade, no entanto, é bem diferente. 

A tese de mestrado de Baptista, baseada em entrevistas com 32 usuários e 14 informantes (psicólogos, DJs e outros), e apresentada na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), traz outros dados sobre o perfil do paulistano consumidor de ecstasy. Ele é jovem, 81% pertencem à classe média, 46,8% fazem faculdade e a maioria está inserida no mercado de trabalho. E eles não têm medo da pastilha. 

“Não bate a deprê da cocaína, nem a vontade de ser constante como a maconha. 

Deixa consciente, não dá bode e nem deixa lento”, conta o universitário R.D., de 21 anos, consumidor ocasional. A história não é bem assim. Apesar de serem raros os casos de dependência, a droga já provocou, oficialmente, a morte de uma pessoa em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em maio deste ano. 

Os usuários, porém, acreditam que a pílula não faz ‘tão mal’. O estudo mostra que 50% deles mencionam só os efeitos positivos da droga, como a euforia, bem-estar, desinibição, felicidade e leveza. “Você fica consciente, e com uma visão de mundo clara. Faz uma viagem a seu interior, se livra dos preconceitos e passa a ver as qualidades das pessoas”, conta o universitário, que não considera o ecstasy uma droga. “Foi o único que me deu benefícios pós-uso”, diz o jovem, que já experimentou maconha e LSD. 

Segundo Baptista, 100% dos usuários de ecstasy usam outras drogas. “O ecstasy é uma droga de tolerância rápida, semelhante a outras anfetaminas, mas não há quadros de síndrome de abstinência. Aí é que vem a pergunta: ele provoca dependência?”, diz o psicólogo, comentando que há poucos estudos sobre o assunto e desinformação entre profissionais de saúde. 

Ecstasy pode levar a náuseas e depressão 

A aparente segurança não existe. De 20 a 60 minutos após a ingestão da pastilha, a boca seca e o corpo superaquece, podendo elevar a temperatura a 42º C e à desidratação e coagulação das células do sangue. 

Aliada à dança ininterrupta de alguma casa noturna ou rave, contexto que quase sempre está associado ao uso, segundo a pesquisa, a desidratação ou o consumo exagerado de água pode matar. 

Muitos usuários recorrem a pirulitos e chicletes para driblar espasmos no maxilar e ranger de dentes. Segundo Baptista, outros usam truques como ter uma alimentação balanceada e beber água moderadamente (40,6%) e não associar a droga a bebidas alcoólicas (15,6%). 

Também podem acontecer náuseas, câimbras, depressão, taquicardia, visão turva, insônia, problemas hepáticos, pânico e movimentos descontrolados do corpo. O neurocirurgião Célio Levyman, do Hospital Albert Einstein, já atendeu 20 pacientes com complicações provocadas por ecstasy- quatro com quadro de possível derrame. Dos 20, só um admitiu ter usado a droga. “A maioria esconde por receio paterno e da polícia”, conta ele. Mas outro fator contribui para o sigilo. “Se for constatado que o problema foi por uso de drogas, o plano de saúde não cobre as despesas.” 

Passado o efeito, o perigo continua. Um estudo do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos Estados Unidos (NIDA) mostra que os danos causados ao cérebro permanecem até 9 meses após a abstinência. Consumidores regulares de ecstasy tiveram resultado 24% pior que não-usuários em testes de memória e coordenação, como memorizar listas de palavras desconexas e caminhar em linha reta.

Fonte: Jornal da Tarde


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