A maconha e o cérebro - Parte III

7 Outubro 2008  |  Publicado por Editor BRAHA em Drogas Psicoativas


Imprimir este Post  |  Enviar por E-mail

O sistema canabinóide e a função motora

 

Há uma grande concentração de receptores canabinóides nos núcleos da base e no cerebelo, regiões do sistema nervoso responsáveis pela coordenação da motricidade e do equilíbrio do corpo. Em experiências com animais (cachorros e ratos) observou-se um padrão de comportamento denominado “efeito pipoca”, isto é, diminuição da atividade motora (sedação) com resposta rápida e intensa aos estímulos externos (tato, sons, ect).

 

O sistema canabinóide e a função motora

 

Há uma grande concentração de receptores canabinóides nos núcleos da base e no cerebelo, regiões do sistema nervoso responsáveis pela coordenação da motricidade e do equilíbrio do corpo. Em experiências com animais (cachorros e ratos) observou-se um padrão de comportamento denominado “efeito pipoca”, isto é, diminuição da atividade motora (sedação) com resposta rápida e intensa aos estímulos externos (tato, sons, ect).

 

Em seres humanos a maconha interfere na coordenação e no equilíbrio dos movimentos, além de deixar o usuário mais propenso ao ensimesmamento e à imobilidade. Isso pode ser explicado pela presença maciça de receptores CB1 nos terminais nervosos inibitórios (GABA) e excitatórios (glutamato), tanto no cerebelo, quanto nos núcleos da base. A ação combinada de GABA e glutamato regulam a atividade motora e sua intensidade (tônus muscular). Tal ação combinada parece ser modulada pelo sistema canabinóide, que passa a ser considerado como ‘o maestro’ da atividade motora basal nos seres humanos. Através da inibição retrógrada, o sistema canabinóide fortalece um ou outro sistema, dependendo das necessidades momentâneas do organismo.

 

Há evidências parciais de que a maconha alivia a tensão muscular e a contração exagerada que dificulta o movimento (espasticidade), como acontece na esclerose múltipla. Estudos com animais obtiveram melhora destes sintomas quanto medicamentos à base de maconha foram administrados. Estudos clínicos controlados estão em andamento.

 

O sistema canabinóide e a memória

 

A memória para fatos recentes, especialmente quando depende da atenção, fica visivelmente prejudicada durante o consumo de maconha. O local responsável pela ocorrência deste fenômeno é provavelmente o hipocampo. O hipocampo é parte integrante do sistema límbico. A presença do THC torna esta estrutura incapaz de segregar informações provenientes de diversos locais e situações, devido a déficits no processamento das informações sensoriais.

 

O hipocampo é rico em terminações nervosas inibitórias (GABA) e excitatórias (glutamato). A ação conjunta e sincrônica de ambas cria uma situação de extrema plasticidade nas sinapses do hipocampo para regular a recepção e o processamento das informações advindas do ambiente externo. Desse modo, situações que requerem da memória grande esforço e atenção, aumentam a atividade excitatória (potencialização de longa duração – LTP). Quando não a aquisição de informação não é enfatizada (por exemplo, o olhar despreocupado e relaxado pela janela de um ônibus durante uma viagem), a ação inibitória (GABA) prevalece (depressão de longa duração – LTD).

 

A ação do sistema canabinóide (anandamida) e do THC inibem de forma retrógrada ambos sistemas, sendo o sistema excitatório bloqueado com mais intensidade. Com isso, há prejuízo na habilidade dos circuitos nervosos do hipocampo na recepção e no processamento das informações, dificultando a fixação dos fatos ocorridos durante o consumo de maconha.

 

O sistema canabinóide e o neocórtex

 

A palavra córtex deriva do grego e significa casca. O córtex é uma fina camada entre dois e seis centímetros que reveste e faz parte do cérebro. Ele é formado pelo agrupamento de neurônios, que recebem e interpretam as informações do meio ambiente e por neurônios que planejam e executam a melhor resposta para cada situação. Durante a evolução, o córtex aumentou significativamente, chegando ao seu maior grau de desenvolvimento na espécie humana. Isso explica o aparecimento das funções psíquicas e intelectuais no homem.

 

A partir de sua evolução, o córtex foi dividido em arquicórtex (presente desde os peixes), paleocórtex (presente desde os anfíbios) e o neocórtex (presente desde os répteis, mas predominante nos mamíferos). As duas estruturas corticais primitivas ocupam apenas uma pequena parte do córtex humano, ligadas à olfação e ao comportamento emocional (sistema límbico).

O neocórtex é responsável pelo controle motor e das funções cognitivas superiores, tais como inteligência, abstração, raciocínio, planejamento e julgamento. Há uma grande concentração de receptores canabinóides (CB1) no neocórtex. A ação do sistema canabinóide nesta região causa sonolência, enquanto a inibição, aumento da atenção e da vigília. Desse modo, conclui-se que a atividade canabinóide neocortical está relacionado ao controle do ciclo sono-vigília.

 

Quanto à percepção, não se observaram alterações na qualidade da captação de sons e cores, apesar da maioria dos usuários relatar aumento da percepção visual e auditiva, muitas vezes em sinergismo (“os sons têm cores e as cores têm sons”). Outro achado é a percepção demora na passagem do tempo. Outros fenômenos relacionados à ação do sistema canabinóide sobre o neocórtex são: redução da habilidade em inibir respostas (desinibição), diminuição do estado de vigília (sonolência, “chapação”), especialmente para atividades longas e entediantes e piora da habilidade em realizar mentalmente raciocínios aritméticos complexos. Por outro lado, operações aritméticas e de aprendizagem simples, bem como a memória de longa duração encontram-se inalterados.

 

A existência de prejuízos cognitivos permanentes não é consensual. Acredita-se que o uso crônico e pesado provoque déficits cognitivos discretos, em sua maioria reversíveis com a abstinência. No entanto, prejuízos pequenos, mas significativos podem permanecer. Tal quadro seria improvável em usuários eventuais.

 

O sistema canabinóide e o apetite

 

A capacidade da maconha em desencadear fome em seus usuários, ainda que recém-alimentados, é bastante conhecida e chamada popularmente de “larica”. O apetite é direcionado para alimentos adocicados e às vezes para misturas doces e salgadas pouco usuais (perversão do apetite).

 

Estudos vêm demonstrando que o THC é benéfico na indução do apetite e no combate à perda de peso em pacientes com AIDS. Seu consumo com estes propósitos é permitido na Holanda, Canadá, Suíça e em alguns locais dos Estados Unidos.

 

A ação do sistema canabinóide sobre o apetite ocorre provavelmente no hipotálamo. Estudos em animais notaram que o estímulo do sistema nessa região provoca aumento da ingesta (especialmente de alimentos doces), enquanto o bloqueio, leva à supressão da mesma. O hipotálamo sintetiza um hormônio supressor do apetite, denominado leptina. A anandamida é capaz de bloquear a ação deste hormônio. Desse modo, o sistema canabinóide opera como modulador da ação da leptina, regulando, assim, a ingestão de alimentos e o ganho de peso do organismo.

 

O sistema canabinóide e a inibição do vômito

 

A habilidade do THC e do canabinóide sintético nabilone para controlar a náusea e o vômito associados à quimioterapia é uma das poucas aplicações terapêuticas da substância bem documentadas e consensuais. De fato, a ação sobre os receptores CB1 inibe o vômito, ao passo que o bloqueio produz efeito contrário. O substrato neurobiológico e o mecanismo de ação exato permanecem desconhecidos.

 

O sistema canabinóide e a dor

 

No século XIX, a maconha foi largamente utilizada para o alívio da dor. Recentemente, esta propriedade voltou a ser estudada, apesar dos achados até o momento não indicarem vantagens iguais ou superiores aos medicamentos já existentes.

 

Anandamidas e receptores canabinóides existem em grande quantidade ao longo de todo o circuito da dor (da inervação periférica, passando pela medula espinhal e chegando ao cérebro. Desse modo, estudos vêm demonstrando que o sistema canabinóide é capaz de diminuir a sensibilidade à dor em doenças inflamatórias e não-inflamatórias. O bloqueio do sistema não provoca aumento da sensibilidade à dor, sugerindo que este não está envolvido na modulação da sua intensidade.

 

Há relação paralela, mas não distinta, entre o sistema canabinóide e o sistema opióide. Apesar de atuarem em vias distintas, ambos atuam comumente em alguns locais do sistema nervoso e parecem potencializar um ao outro.

 

Fonte: Site Álcool e Drogas sem Distorção


Imprimir este Post  |  Enviar por E-mail

ATENÇÃO: todos os textos publicados no site BRAHA.ORG têm como objetivo servir de fonte de informações técnicas e científicas para consulta e pesquisa de todos aqueles que desejam saber sobre os temas tratados.


Medicina & Saúde »

Políticas de Drogas »

  • EUA: FBI fecha lojas que vendem maconha
    Dez 7, 2011 | Texto completo

    Atualmente há mais lojas vendendo maconha “legal” do que cafeterias de uma famosa rede. Uma equipe de TV conseguiu uma receita para uso de maconha sem comprovar nenhuma doença.

  • Drogas e prevenção: a luta continua
    Nov 30, 2011 | Texto completo

    Segundo a especialista Mina Seinfeld de Carakushansky, a dependência química é uma forma moderna de escravidão, e apenas políticas sérias e equilibradas são capazes de controlar o problema.
    O Relatório Mundial sobre Drogas 2011, divulgado recentemente pela Organização das Nações Unidas em Nova York, mostra que a chamada “guerra contra as drogas” não está perdida. Pelo [...]

  • Ronaldo Laranjeira: “Governo subestima o problema do crack”
    Jun 9, 2011 | Texto completo

    “Achar que a SENAD busca a solução para o crack é uma grande bobagem”, diz Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP

Cultura do Meio Ambiente »