A droga no corredor
25 Outubro 2009 | Publicado por Editor BRAHA em Informações
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Bruna Maestri Walter – Gazeta do Povo, 25 de outubro de 2009
Nem falta de vaga na garagem, nem preço do condomínio. Um dos problemas que mais causam preocupação é silencioso e dificilmente aparece nas reuniões de condomínio: o tráfico de drogas. Presidentes de conselhos comunitários de segurança, porteiros e síndicos entrevistados são unânimes em afirmar que as drogas tornaram-se uma preocupação nos prédios das classes média e alta em Curitiba.
Muitas vezes, as consequências da dependência química não ficam restritas ao apartamento do usuário. Festas até tarde da noite passam a ser comuns, assim como a falta de respeito às regras do condomínio, movimentação diária de pessoas estranhas, danos a bens do prédio e furtos. A situação pode se agravar até o ponto em que o apartamento se torna um ponto de tráfico.
Foi o que aconteceu num prédio na Rua Doutor Pedrosa, no Centro de Curitiba, onde vivia o ex-policial Gerson Saldanha, que trabalhava para o tráfico. Dependentes químicos frequentavam o apartamento, bem como o traficante Hirosshe de Assis Eda, o Japonês, que queria dominar a venda de drogas na região central. Em junho, a polícia perseguiu Japonês para prendê-lo. Foi encontrá-lo no apartamento de Gerson, onde houve uma troca de tiros que resultou nas mortes de Japonês, de uma mulher e de um investigador.
Uma moradora, que prefere não ser identificada, conta que já desconfiava que o apartamento de Gerson era ponto de tráfico, por causa dos frequentadores. O entra e sai constante de pessoas estranhas e alteradas é um indicativo de que algo errado está acontecendo. “Eram meninos de rua, garotas de programa”, afirma. “Eles entravam em três, quatro, no elevador, e a gente ficava sozinha. Às vezes conseguia disfarçar e não pegar o elevador. Em outras acontecia de você já estar dentro.”
O presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) do Bacacheri 1, José Augusto Soavinski, confirma que ocorre tráfico de drogas em condomínios: “Hoje a classe média alta também está traficando, caso do ecstasy, do crack”. Muitas denúncias também chegam ao Conseg Bacacheri 2. “Parece que a coisa está sendo centralizada. Estão se fechando e entrando nos prédios, nos condomínios fechados, casas de alto nível”, afirma o presidente do Conselho, Paulo Negrão.
Apesar de existir, o tráfico no prédio é apontado como uma situação extrema. O mais comum é o morador que usa drogas para consumo próprio. O presidente do Conseg Batel, Acef Said, opina, porém, que o usuário de drogas é um potencial traficante. “O drogado, enquanto tem dinheiro, é apenas drogado. Quando não tem, passa a traficar para consumir”, afirma. Esse morador pode começar a furtar coisas do prédio, segundo Said.
O presidente do Conseg Batel diz que há uma resistência muito grande por parte dos síndicos em denunciar o problema. “É um problema que afeta todo mundo e ninguém quer se mexer.” O presidente do Conseg Água Verde, José Gil de Almeida, também observa que os moradores ficam incomodados com a situação, mas têm medo de denunciar.
O presidente da Associação de Condomínios do Batel, Paulo Nascimento, aponta que há tráfico nos prédios, mas que isso não aparece nas estatísticas porque a maioria não denuncia. Ele defende que seja feito um regimento interno de segurança do prédio, com controle de entrada de veículos na garagem e de entrega de mercadorias e identificação de todos os funcionários, por exemplo.
Nascimento afirma que a maioria dos porteiros está atenta ao controle, mas que também há o outro lado: de quem é conivente com a situação. Um profissional, que prefere não ser identificado, conta que num prédio nobre da capital, o porteiro vendia a droga e indicava ao usuário, que vivia com os pais, onde consumir no prédio, longe das câmeras de segurança.
O diretor-secretário do Sindicato dos Empregados em Condomínio de Curitiba e Região Metropolitana, Hélio Rodrigues da Silva, afirma que não recebeu informação de situações como essa. Silva diz que, conversando com porteiros, percebe que o problema com drogas é comum. “É uma situação difícil para os porteiros, que não sabem o que fazer e a quem comunicar. Se o porteiro fala para os pais, eles não acreditam”.
Situações suspeitas
Alguns episódios relatados por líderes comunitários, porteiros e moradores ajudam a identificar comportamentos de risco. - Porteiro fornecedor –Há casos em que a droga é fornecida pelo porteiro. Em um prédio nobre de Curitiba, um dos porteiros vendia a droga e acobertava o usuário.
Entrega em casa – A droga é entregue no prédio. Um porteiro percebeu que um morador sempre pedia pizza “especial” no mesmo horário e com o mesmo fornecedor. Logo em seguida, o sujeito ficava alterado. Ele era dependente químico e a droga vinha na caixa da pizza.
Fornecedor no apartamento – Em um prédio do bairro Água Verde, a moradora usuária de drogas ficou com medo de comprar cocaína e LSD na rua. Anotou o telefone do traficante para receber a “encomenda” em casa. O entregador subia até o apartamento da moradora, que não conhecia o visitante.
Furtos no prédio – Quando falta dinheiro para comprar a droga, o viciado começa a fazer furtos no edifício. Em um deles, os rádios dos carros estacionados na garagem estavam sendo furtados. Câmeras de segurança resolveram o problema.
Abaixo-assinado – Condôminos fizeram um abaixo-assinado para que um morador usuário de drogas saísse do prédio. Todos os fins de semana ele fazia festas com bebidas alcoólicas e maconha.
Festas fora de hora – A reclamação de festas nos prédios com drogas é comum. Num deles, a festa com entorpecentes acontece na piscina. Os moradores veem, mas têm medo de denunciar.
Entra e sai – Há grande circulação de visitantes que vão até o apartamento do usuário comprar a droga. Chegam a consumir lá dentro e saem do prédio alterados.
Orientação é denunciar o vizinho
Segundo a advogada do Sindicato da Habitação e Condomínios do Paraná (Secovi-PR), Luana do Bomfim e Araújo, a situação de consumo de drogas nos prédios tem se tornado bastante comum e a principal dúvida dos condôminos é como agir diante desse fato. Luana aponta que o primeiro passo é buscar orientação com a polícia. Segundo a advogada, a investigação policial pode descobrir informações sobre o que aparentemente era apenas consumo de drogas.
O contato com a polícia pode ser feito por qualquer morador. Ela explica que o síndico consegue atuar mais na consequência do que no fato em si: “Se o usuário de drogas perturbar o sossego, posso reclamar. Com relação a visitas, não posso impedir, mas colocar controle. Se ele se tornar agressivo, o primeiro passo é relatar o fato ao síndico e fazer boletim de ocorrência”.
O delegado Marcus Vinícius Michelotto, coordenador estadual da Divisão de Narcóticos (Denarc), afirma que o usuário de drogas que causa problemas no edifício e vira traficante precisa ser denunciado. O vizinho pode perceber isso pela mudança de comportamento desse morador, que fica mais em casa, não trabalha, recebe várias visitas.
Michelotto explica que a denúncia pode ser feita anonimamente. A partir daí, policiais irão fazer um trabalho de inteligência para checar a veracidade da denúncia. Se for comprovada, a polícia irá buscar autorização da Justiça para poder agir e efetuar a prisão do traficante.
Serviço: Denúncias podem ser feitas para o Narcodenúncia, pelo telefone 181; ao Denarc, no (41) 3270-1700; à Secretaria Municipal Antidrogas, pelo site www.antidrogas.curitiba.pr.gov.br
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