Aos poucos, Luciana deixa o inferno do crack

16 Novembro 2009  |  Publicado por Editor BRAHA em Informações, Para os Educadores


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Em entrevista ao DC, Luciana Borges, de 22 anos, conta sua experiência pelas ruas da Cracolândia. Em tratamento, começa a se libertar do vício.

Com um violão emprestado e a voz afinada, a paulistana Edinéia Luciana Garcia Borges, de 22 anos, empolgou a platéia do sarau de poesia e música, que reuniu no mês passado moradores de rua no espaço público Dom Luciano Mendes de Almeida, no Centro. O que ninguém poderia imaginar naquela tarde é que Luciana deixou recentemente um endereço da Capital comparado ao inferno: a Cracolândia.

Luciana começou a fumar crack na adolescência “por curiosidade” e devido à facilidade em obter a droga. Ela vivia com a mãe em um apartamento em Santa Cecília, zona oeste. Hoje, uma pedra de crack (droga feita da substância que resta da produção da cocaína) é vendida por R$ 5 na região da Luz. O vício a afastou da mãe, do colégio (ela completou apenas o ensino fundamental) e das aulas de violão. Em pouco tempo, seu mundo desmoronou e ela virou moradora de rua, sem nada.

No início de 2009, ela decidiu sair da Cracolândia. Passou a dormir sob a passarela da avenida Prestes Maia e aceitou ajuda oferecida por agentes sociais da Prefeitura, em um programa que une a assistência social à área Saúde.

A partir daí, entrou em um novo caminho que a levou ao sarau no espaço Dom Luciano Mendes de Almeida. Desde setembro, faz tratamento gratuito contra a dependência química no Centro de Atenção Psicossocial, Álcool e Drogas (CAPS) na Sé (rua Frederico Alvarenga, número 259). Além das consultas, ela recebe seus remédios no CAPS. Por conta da medicação e atendendo a seu pedido, a jovem conseguiu vaga fixa no albergue municipal Portal do Futuro, no Bom Retiro.

Lá tem uma cama reservada em dormitório que divide com outras 49 mulheres. Fã de Ana Carolina, Cazuza e Rappa, Luciana conta, nesta entrevista ao Diário do Comércio, como está vencendo a luta contra o crack e como foram seus dias na Cracolândia.

Diário do Comércio – Com que idade você começou a fumar o crack?

Luciana Borges – Eu tinha 14 anos. Comecei fumando maconha com amigos, digo amigos entre aspas, gente mais velha, nas ruas de Santa Cecília. Depois veio o mesclado, que é o crack com a maconha e então fumei o crack, por curiosidade. Sempre ouvia que a loucura era maior e quis conhecer. Tudo começou ao lado de casa, no bairro.

DC – Quando você foi parar na Cracolândia?

Luciana – Foi tudo muito rápido. O crack é altamente viciante. Com 15 anos eu fui parar na Cracolândia, andava pelas ruas Helvétia, Guaianases, dos Gusmões e Triunfo, onde era fácil conseguir e fumar a droga.

DC – Nesta época, você morava com sua mãe?

Luciana – Minha mãe, Nair, me adotou quando eu tinha três meses de idade. Sou filha única. Morávamos em um apartamento pequeno no bairro de Santa Cecília. Eu estudava em um bom colégio particular, o Piratininga, graças a uma bolsa de estudo. Mas o problema é que a vontade de fumar o crack cresceu a cada dia.

DC – Como surgiram os primeiros conflitos?

Luciana – Cheguei ao ponto de só pensar em como conseguir a droga. Não pensava como pessoa normal. Quando acordava, pensava no que faria para fumar naquele dia. Não pensava “vou tomar um banho”, “tomar um café”. Foi uma fase difícil. Minha mãe ficou sabendo. Ela preferiu fechar os olhos para um problema que não sabia como resolver.

DC – Você tinha dinheiro para comprar a droga?

Luciana – Eu trabalhava como auxiliar em uma clínica veterinária. Mas admito que peguei coisas de minha mãe, cheguei ao ponto de fazer pequenos furtos em casa. Então, com 16 anos, eu fui internada pela primeira vez em uma clínica de Piracicaba. Fiquei sete meses internada, o que me ajudou um pouco.

DC – Depois da internação você voltou para a Cracolândia?

Luciana – Na casa de recuperação você está protegida, está em um ambiente longe das drogas. Mas lá fora está o mundão. A dependência química é uma doença emocional. No primeiro abalo emocional que tive, bateu a vontade de fumar. E aí passei a fumar direto, não importava a hora. Às vezes nem sabia se era segunda-feira ou domingo. Cheguei a ficar nove dias na Cracolândia, acordada, fumando o crack, sem dormir, comendo o suficiente para manter o corpo de pé e tomando banho em hotéis baratos.

DC – Você não sentia fome e frio?

Luciana – Senti frio, senti fome, tudo, mas a vontade está voltada para o uso da droga. Nestes dias emagreci bastante e fiquei com o raciocínio lento.

DC – Não temeu o risco de morrer?

Luciana – Vi garotos sofrendo de overdose, passando mal por não aguentar o corpo de pé e gente com problemas psicológico por causa da abstinência. Certo dia, tive vontade de morrer porque achei que não conseguiria sair da Cracolândia.

DC – O que aconteceu?

Luciana – Eu percebi que iria apagar, que meu cérebro iria acabar desligando, aí fui para a casa de minha mãe dormir. Eu ainda tinha casa e minha mãe me recebeu.

DC – Na condição de menor, você foi abordada alguma vez pelo Conselho Tutelar?

Luciana – Não. Nunca fui abordada por alguém do Conselho Tutelar ou da Justiça. Apenas alguns policiais tentaram me convencer a deixar o vício. Sabiam que eu tinha alguma instrução e procuravam conversar comigo.

DC – O que a fez procurar ajuda no início de 2009?

Luciana – O ponto crucial que me fez desejar voltar à vida foi o horror que passei na rua. Dormia embaixo de uma passarela com medo da violência. Há todo tipo de violência na rua. Há até os ratos de mocós, que são os moradores de rua que roubam outros moradores de rua. Vi que a rua não é o meu lugar, não é para mim, que tenho potencial para tentar ser gente.

DC – O que mais te magoou na rua?

Luciana – Foi a desconsideração das pessoas. O morador de rua é algo invisível. Eu ia pedir coisas nas ruas e era como se as pessoas vissem um poste. Eu era um poste.

DC – O que poderia ajudar os jovens a sair da Cracolândia?

Luciana – O jovem precisa de motivação. Talvez um trabalho sério com crianças e adolescentes ligado ao futebol ajude. Estamos no país do futebol. Porém, jovens cresceram querendo ser bandido, com estes será complicado, porque a motivação já está errada. Mas outros aceitarão. Se conseguir puxar um jovem, puxará o resto porque o grupo vai ver o que acontece de bom. A recuperação deveria ocorrer na Cracolândia, mas sei que é difícil. Para parar de fumar a pessoa tem de se afastar dali.

DC – Como você está reconstruindo sua vida?

Luciana – Aqui no albergue Portal do Futuro tenho minha amiga Elizeth de Lima Soares (ex-moradora de rua, de 39 anos), que está me apoiando. Faço tratamento no CAPS. Lá, a Natalie (funcionária) é um anjo para mim. Pretendo conseguir um emprego, voltar a estudar violão e rever minha mãe, com quem converso no telefone.

DC – Você vai vencer esta luta?

Luciana – Os remédios não tiram totalmente a vontade de usar a droga, mas ajudam a controlar o humor. Isso é bom. Estou sem usar a droga há dois meses. Avaliando o custo e o benefício, vejo que a droga não vale a pena, não vale nada. Tenho fé em Deus que vou recomeçar a minha vida. A fé move montanhas.

DC – O que hoje você mais deseja?

Luciana – Um violão. Ser cantora.

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Fonte: http://www.dcomercio.com.br/Materia.aspx?id=32049


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