Drogas: o perigo ronda as escolas
22 Novembro 2009 | Publicado por Editor BRAHA em Informações, Para os Educadores
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“Já experimentei maconha, ecstasy, LSD e lança perfume, sempre em festas e na companhia de amigos. Na minha escola, entre os mais velhos, difícil é achar quem nunca usou nenhuma dessas coisas”. A declaração é de uma garota de apenas 14 anos, que estuda em um colégio de classe média de São Paulo. Há ainda um dado a ser acrescentando na já preocupante relação entre jovens e drogas: a escola, local onde crianças e adolescentes passam a maior parte do tempo, vem se tornando a porta de entrada para o mundo da experimentação.
“É ali que os jovens aprendem a beijar e têm sua iniciação sexual, mas também pode ser ali o lugar onde eles terão o primeiro contato com as drogas”, afirma Ronaldo Laranjeira, psiquiatra e coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Geralmente, a experiência começa com drogas legais, como álcool, tabaco e cola de sapateiro. Em seguida, entram as drogas ilícitas e, entre essas, a maconha está em primeiro lugar quando se trata de ambiente escolar.”
Não há números globais sobre a penetração das drogas na escolas brasileiras. Contudo, a impressão generalizada e os dados esparsos indicam que ela avança. “Pesquisas locais já apontavam para o uso precoce dessas substâncias”, revela Paulina Vieira Duarte, titular da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad).
Aula anti-droga - O problema já bateu às portas da cúpula da educação pública no Brasil. Prova disso é que, no próximos dia 17, professores de todo o país encerrarão um curso de capacitação à distância para lidar com o assunto. A ação é uma parceria entre o Ministério da Educação (MEC), a Universidade de Brasília (UnB) e a Senad.
O objetivo é formar profissionais capazes de abordar adolescentes já usuários de drogas e conscientizar aqueles que ainda não se envolveram com esse tipo de problema. Constam do treinamento também orientações sobre como lidar com uma constatação crescente: o consumo e eventualmente até o tráfico de drogas se dá dentro dos muros da escola.
O crescimento do números de profissionais treinados pelo MEC dá uma ideia da evolução desses problemas: em 2004, na primeira edição da capacitação, foram 5.000 educadores provenientes de mil escolas públicas do país. Neste ano, serão 25.000, de 4.658 unidades de todos os estados.
“A ainda há uma demanda reprimida de mais de 15.000 vagas”, afirma Paulina, da Senad. “Precisamos preparar os professores para que eles saibam abordar o problema de drogas nas escolas, além de realizar o encaminhamento adequado para a rede de serviços de atenção a usuários e seus familiares”.
De acordo com pesquisa realizada pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) da Unifesp, 57% dos jovens entre 12 e 17 anos consideram que obter drogas em “qualquer momento” é ”muito fácil”. Em 2001, 48,3% já tinham ingerido álcool; três anos depois, eram 54,3%. O consumo de maconha também subiu: de 6,9%, em 2001, para 8,8% em 2005.
‘Eu comprava maconha dentro da escola’
Especialistas alertam: o primeiro contato dos jovens com as drogas pode ser dar na escola ou com amigos da mesma turma. Confira a seguir depoimentos de alunos e ex-alunos de três colégios de classe média e classe média alta de São Paulo: eles contam como entraram em contato com as drogas no interior das escolas e relatam até episódios de tráfico dentro dessas instituições. Os jovens só concordaram em falar com a condição de que seus nomes e os das escolas onde estudam ou estudaram fossem preservados.
“Eu tinha 15 anos quando fumei maconha pela primeira vez. Estava curioso para experimentar e resolvi conversar com um amigo para fumarmos juntos. Eu não sabia nem tragar, e ele teve que me explicar tudo. O lança perfume e a maconha eram as drogas mais comuns entre as pessoas do meu colégio, mas eu nunca fumei dentro da escola: eu e meus amigos saíamos nos intervalos de almoço para fumar em uma praça próxima e depois voltávamos para assistir às aulas da tarde. Dentro da escola, a passagem da droga acontecia sempre antes da aula de educação física, quando os alunos estavam trocando de roupa. Era tudo muito rápido: um cara da minha sala anotava os pedidos e pegava o dinheiro dos interessados para, alguns dias depois, trazer a droga para a gente no banheiro”.
Lucas, 22 anos, ex-aluno
“Na minha escola, tem muita gente que usa droga, principalmente os mais velhos, alunos do ensino médio. A maioria fuma maconha, mas também tem aqueles que usam ecstasy, LSD e lança perfume. Eu já experimentei todas essas drogas, mas nunca usei dentro da escola. Soube de gente que já bebeu antes de ir para a aula ou levou bebida alcoólica dentro de garrafinhas de água e acabou passando mal. Os diretores e professores percebem, é claro, quando isso acontece, porque é fácil reparar na mudança de comportamento dos alunos. Recentemente, um menino foi pego depois de fumar maconha dentro do banheiro e foi expulso do colégio, porque ficou um cheiro muito forte e todo mundo foi ver o que tinha acontecido. As câmeras dos corredores registraram que ele tinha sido o último a entrar. Mas isso não é o mais comum. A venda e o consumo não são feitos dentro da escola, geralmente, os alunos compram e usam antes ou depois das aulas, mas tem gente que compra de pessoas de fora, e aí recebe a mercadoria no portão do colégio”.
Milena, 14 anos, estudante da oitava série do ensino fundamental
“Até o início deste ano, eu fumava maconha e cigarro periodicamente, mas parei. Hoje, mais da metade da minha classe usa drogas, desde bebidas alcoólicas até maconha. Geralmente, as pessoas não costumam usar drogas dentro da escola, mas no portão o pessoal já fuma cigarro normalmente. No ano passado, houve um caso de três ou quatro alunos que beberam vodka dentro da sala de aula da oitava série e foram suspensos. Também aconteceu de um cheiro forte de maconha subir do banheiro, mas não descobriram quem tinha fumado. Já soube que rolava tráfico de maconha dentro da escola, mas ninguém nunca foi pego, e teve um ano em que a comissão de formatura arrecadava dinheiro especialmente para comprar maconha para a viagem de final de ano”.
Beatriz, 16 anos, estudante do segundo ano do ensino médio
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