Comportamento sexual de risco e DSTs em indivíduos que usam crack - II

7 Outubro 2008  |  Publicado por Editor BRAHA em Medicina & Saúde


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Comportamento sexual de risco e DSTs em indivíduos que fazem uso preferencial de crack - Parte II

Os autores investigaram a prevalência de DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) em 407 usuários de drogas participantes de três programas de tratamento para dependência no Texas. Dois grupos foram comparados: indivíduos cujo crack era a droga de escolha e indivíduos que utilizavam outras drogas.
A associação de crack (cocaína “fumável”) com doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), inclusive HIV, já foi extensivamente documentada na literatura científica. O crack pode ser definido como a “cocaína dos pobres”, porém com um efeito muito mais curto e intenso. Esta associação sugere que as pessoas que usam crack sejam um grupo de alto risco para DSTs, e particularmente naqueles em que o crack é a droga de escolha. Os profissionais de saúde devem sempre checar a presença de DSTs em usuários de crack que estão em programas de tratamento de drogas a fim de evitar complicações e diminuir a disseminação destas doenças.
Os autores deste estudo procuraram programas de tratamento para dependentes de drogas com a finalidade de determinar o comportamento de risco e verificar a presença de DSTs em usuários de droga em tratamento. Outros autores já haviam sugerido que as taxas crescentes de DSTs e HIV estariam associadas ao uso de crack visto que, no subúrbio de grandes centros urbanos, a troca de drogas por sexo e de sexo por drogas é uma prática comum.

Resultados

Como é freqüentemente observado nos serviços de atendimento a usuários de substâncias, a amostra era composta mais de homens do que mulheres, sendo que a maioria entre 25 e 44 anos. Mais da metade dos respondentes era solteiro, desempregado e tinha filhos.
Quase todos os respondentes (94.8%) tinham feito uso de bebidas alcoólicas em suas vidas. Uma maioria também tinha usado cocaína (82.3%), crack (65.4%), maconha (62.4%) e estimulantes (51.1%), principalmente anfetaminas.
Em mais da metade dos casos a droga de preferência foi a cocaína (24.8%) ou o crack (34.2%). Apenas 7.1% tinham feito uso de opióides. Menos da metade da amostra (45.5%) tinham feito uso de drogas injetáveis durante a vida e dos que fizeram uso, (79.5%) disseram ter compartilhado agulhas ou qualquer outro objeto de risco para a transmissão de doenças, incluindo o HIV. Cinqüenta e cinco por cento da amostra tinha história de tratamento prévio.
Um quarto da amostra disse ter vendido sexo por dinheiro ou drogas, e quase um terço pagou sexo com drogas ou dinheiro. Como poderia ser esperado, mais mulheres tinham vendido sexo que homens, enquanto mais homens compraram sexo, em troca de drogas ou dinheiro.

Discussão

De acordo com os autores, os resultados deste estudo devem ser vistos com algumas ressalvas: Primeiro, as clínicas das quais a amostra foi estudada não representam necessariamente todas as clínicas de abuso de drogas, e os respondentes podem não representar a amostra de usuários de outras partes dos Estados Unidos. Segundo, as diferentes políticas das clínicas estudadas, como a Clínica Houston que trata os pacientes com DSTs na admissão, podem ter reduzido os níveis de DSTs observados. Finalmente, como os respondentes estavam em regime de tratamento de drogas, o comportamento sexual podem ter sido significativamente diferente do que se não estivessem em tratamento.

Na amostra de usuários de drogas participantes de três programas de tratamento para dependência no Texas, 7.4% dos respondentes apresentaram DSTs facilmente tratadas como: sífilis, gonorréia ou chlamydia. Considerando aqueles que usavam preferencialmente o crack, esta porcentagem dobrou. Como também foram encontradas taxas elevadas de herpes e hepatite, o tratamento pode ter apresentado uma eficácia limitada em termos de redução da transmissão. Dado o fato de que mais de 20% dos entrevistados tiveram dois ou mais parceiros nas quatro semanas anteriores ao estudo, o tratamento pode ter resultado em uma redução significativa dos casos de DSTs.

Os indivíduos usuários de crack, apresentaram maior número de parceiras quando comparados àqueles que tinham utilizado outras drogas. O crack, mais do que qualquer outra droga, esteve associado à economia do submundo dos centros urbanos, na qual drogas e sexo demonstraram ser a principal moeda de troca. Os indivíduos que faziam uso preferencialmente de crack tiveram uma prevalência significativamente mais alta de sífilis, chlamydia e herpes genital. É provável, então, que programas de tratamento para DSTs que também levem em consideração os locais de tratamento para indivíduos abusadores de crack tenham uma redução epidemiológica das DSTs.

Estes achados reforçam o argumento elaborado por Ross de que as drogas de abuso (principalmente crack) e as DSTs são parte do mesmo problema, e o tratamento da população deveria abordá-los concomitantemente. Considerando que algumas práticas sexuais são mais prevalentes entre usuários de drogas, ao se tratar o abuso de drogas, haveria uma redução de algumas DSTs.
Outros estudos já haviam mostrado que usuários de crack apresentam um número maior de parceiros sexuais e maior troca de drogas por sexo e sexo por drogas do que usuários de outras drogas. Os dados deste estudo não só confirmam isto como também demonstram associações mais altas de DSTs entre indivíduos que fazem uso preferencial de crack.
Os autores recomendam que a vigilância de DSTs e o tratamento associado façam parte da rotina dos programas de tratamento de usuários de drogas, particularmente para usuários preferenciais de crack.

*WHO Center for Health Promotion and Prevention Research, University of Texas Fonte: Int J STD AIDS. 2002 Nov;13(11):769-74.

*WHO Center for Health Promotion and Prevention Research, University of Texas Fonte: Int J STD AIDS. 2002 Nov;13(11):769-74.

Autor: Ross MW*, Hwang LY, Zack C, Bull L & Williams ML
Fonte: Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas (PA


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