Comportamento sexual de risco e DSTs em indivíduos que usam crack - I

7 Outubro 2008  |  Publicado por Editor BRAHA em Medicina & Saúde


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Comportamento sexual de risco e DSTs em indivíduos que fazem uso preferencial de crack

Os autores investigaram a prevalência de DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) em 407 usuários de drogas participantes de três programas de tratamento para dependência no Texas.
Os autores compararam dois grupos: indivíduos cujo crack era a droga de preferência e indivíduos que utilizavam outras drogas.
Os dados indicaram que indivíduos que usavam preferencialmente o crack tinham índices significativamente maiores das seguintes características: raça negra tratamentos prévios para uso de drogas e maior número de marcadores para sífilis, chlamydia e herpes simples.
A preferência por crack também esteve associada a menores taxas de uso de drogas injetáveis ou compartilhamento de seringas e infecção por hepatite C. A preferência por crack em heterossexuais esteve associada a números significativamente maiores de parceiros nas quatro semanas anteriores ao estudo. A análise para gênero e comportamento sexual associado ao uso de drogas, comparando aqueles que preferiam crack à outras drogas e aqueles que preferiam outras ao crack indicou que usuários de crack do sexo feminino praticavam significativamente mais sexo oral. Isto vai de encontro a dados anteriores em que o sexo oral se mostrou como uma modalidade de sexo comumente usada para troca por crack nos locais onde este é vendido.
Em 7.4% da amostra total (14.4% da amostra de indivíduos usuários de crack), foram descobertos casos de DSTs tratáveis. Estes dados sugerem que para os usuários de droga em geral e para usuários de crack em particular, DSTs devem ser tratadas como parte integrante do programa de tratamento da droga.

Introdução

A associação de crack (cocaína “fumável”) com doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), inclusive HIV, já foi extensivamente documentada na literatura científica. O crack pode ser definido como a “cocaína dos pobres”, porém com um efeito muito mais curto e intenso. Esta associação sugere que as pessoas que usam crack sejam um grupo de alto risco para DSTs, e particularmente naqueles em que o crack é a droga de escolha. Os profissionais de saúde devem sempre checar a presença de DSTs em usuários de crack que estão em programas de tratamento de drogas a fim de evitar complicações e diminuir a disseminação destes doenças.

Os autores deste estudo procuraram programas de tratamento para dependentes de drogas com a finalidade de determinar o comportamento de risco e verificar a presença de DSTs em usuários de droga em tratamento. Foi dado enfoque aos indivíduos que preferiam o crack e estes foram comparados àqueles que preferiam outras drogas.

A co-ocorrência de HIV, cancro e uso de crack em grupos de heterossexuais residentes em Nova Iorque e a realização de práticas sexuais como forma de obter dinheiro ou droga foi relatada em outros estudos, confirmando as evidências africanas na associação de cancro genital com infecção por HIV. Um estudo realizado em Houston considerou: sífilis, infecção de HIV, raça negra, e sexo feminino como as variáveis mais significativamente associadas ao uso de crack.

Depois de revisar 16 estudos, Marx concluiu que as taxas crescentes de DSTs e HIV estão associadas ao uso de crack. Drogas trocadas por sexo e sexo por drogas demonstraram estar associadas ao uso de crack em quase todos os estudos (excetuando-se 1). Marx também reforçou que “o peso das evidências aponta para um risco sem igual”. As evidências sugerem que a associação de crack com a troca de sexo por dinheiro ou drogas uma vez estabelecido é o comportamento que relaciona de forma importante o uso de drogas às DSTs.

Baseman, Ross e Williams propuseram que drogas e sexo constituem a economia do submundo de áreas onde o desemprego é alto. Desta forma, eles concluem que modificações no padrão de uso de drogas e diminuições nas taxas de DSTs requerem modificações estruturais e econômicas do local.

Em um estudo prévio, realizado em Houston, os usuários de crack apresentaram alta prevalência de marcadores para infecções sexualmente transmissíveis entre eles: 13% para sífilis, 61% para herpes simplex, 11% para HIV, 53% para hepatite B (anti-HBc) e 42% para hepatite C (anti-HCV). Os autores então sugeriram uma categoria diagnóstica tripla coexistindo: abuso de droga, transtorno mental e DSTs. Este diagnóstico, segundo os autores, deveria ser levado em consideração no tratamento de abusadores de drogas, estendendo a descrição clássica de diagnóstico dual onde coexistem a desordem mental e o abuso de droga. Levando em conta o risco para DSTs, é particularmente importante considerar que o risco de HIV é ainda maior em indivíduos usuários de crack com DSTs.

O estudo desta semana avalia a prevalência e correlata preferência para uso de crack em populações em tratamento de drogas no Texas.

Neste estudo, foram avaliados indivíduos de três locais do Texas: uma clínica de tratamento de droga em Lubbock, uma cidade do Texas ocidental com uma população de 250.000 pessoas e duas clínicas de tratamento de droga em Houston situadas em uma área metropolitana com uma população de mais de quatro milhões de pessoas.

Métodos

Foram coletados dados de pacientes admitidos para tratamento de droga em três clínicas do Texas. Os pacientes foram entrevistados no momento da admissão ou nas primeiras duas semanas do estudo e nas consultas consecutivas. As três clínicas possuíam pacientes que estavam internados, outros em tratamento ambulatorial e em tratamento de manutenção de metadona para pacientes específicos.

Tanto pacientes internados quanto pacientes externos foram convidados a participar do estudo. Não houve qualquer tipo de pagamento ou incentivo para participação. Todos foram informados sobre o propósito do estudo e assegurados da confidencialidade deste. Os que consentiram em participar preencheram um questionário e tiveram uma amostra de urina coletada. Um total de 407 indivíduos concordou em responder o questionário e prover amostras de sangue e urina.

A prevalência de HIV, hepatite B (HBV), hepatite C (HCV), herpes simples (HSV-2) e infecção de sífilis foi determinada em laboratório. Os respondentes que informam ser bissexual ou homossexual e tiveram práticas sexuais nas últimas quatro semanas (10 mulheres e 3 homens) foram excluídos da análise devido à pequena amostra para comparações estatísticas significantes.

Uma análise multivariada que usa um modelo regressão de logística foi realizada para determinar a associação das variáveis independentes associadas com preferência de crack.

 

*WHO Center for Health Promotion and Prevention Research, University of Texas Fonte: Int J STD AIDS. 2002 Nov;13(11):769-74.

Autor: Ross MW*, Hwang LY, Zack C, Bull L & Williams ML
Fonte: Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas (PA


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