Transtornos mentais como fatores de risco para dependencia de cocaina - II

7 Outubro 2008  |  Publicado por Editor BRAHA em Medicina & Saúde


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Transtornos mentais como fatores de risco para o desenvolvimento de abuso/dependência de cocaína - II

Estudos realizados em diferentes partes do mundo têm mostrado uma associação importante entre morbidade psiquiátrica, particularmente depressão e uso de drogas.

Entretanto não fica claro o que vem primeiro o transtorno depressivo ou o uso de drogas. Muitas drogas sabidamente têm como conseqüência de seu uso repetido o aparecimento de sintomatologia característica da síndrome depressiva. Por outro lado, vários autores sugerem que o uso de drogas pode significar uma fuga para conflitos. No caso específico do abuso de cocaína, esta diferenciação é mais difícil de interpretar já que se trata de uma droga que possui efeitos antidepressivos por um lado e por outro, leva a sintomas depressivos como conseqüência de seu uso abusivo ou mesmo como conseqüência de sua falta.

O objetivo deste estudo foi avaliar o papel dos transtornos mentais, dependência de álcool e história de tentativas de suicídio, no risco de desenvolvimento de abuso/dependência de cocaína. Na semana passada, foram citados os estudos.

Método

Os casos selecionados para o estudo foram retirados da amostra do estudo original, composta por usuários de drogas localizados na comunidade (Lopes, 1994). Ao todo, foram identificados 201 casos e número igual de controles.

Os dados do estudo foram obtidos através da utilização do Composite International Diagnostic Interview (CIDI), um instrumento estruturado, padronizado e desenvolvido para propósitos epidemiológicos. Foram consideradas como variáveis de exposição os seguintes transtornos mentais: transtornos afetivos (transtorno depressivo, transtorno afetivo bipolar e distimia); transtornos da ansiedade (agorafobia, fobia social, fobia simples, transtorno do pânico, transtorno de ansiedade generalizada e transtorno obsessivo-compulsivo); abuso/dependência de álcool e dependência de nicotina. As outras variáveis avaliadas como fatores de risco para abuso/dependência de cocaína foram “pensamentos de morte, vontade de morrer, pensamentos suicidas e tentativas de suicídio”. Essas variáveis foram utilizadas como um indicativo da gravidade de depressão.

Foram considerados “expostos” apenas os indivíduos cujo transtorno mental e variáveis relacionadas ao transtorno ocorreram antes do início do abuso ou dependência de cocaína. Portanto, o grupo de “não-expostos” foi constituído por todos aqueles que não preencheram os critérios do DSM-III-R para transtornos mentais e com álcool, ou aqueles cujo transtorno ocorreu no mesmo ano ou depois do abuso/dependência de cocaína.

Resultados

Duzentos e oito indivíduos (104 casos e 104 controles) foram incluídos no estudo. Os dois grupos (casos e controles) eram semelhantes em termos da situação ocupacional, a maior parte da amostra estava trabalhando ou estudando na época em que o estudo foi realizado. A freqüência de indivíduos separados ou divorciados entre os casos era cinco vezes maior do que entre os controles, enquanto a freqüência de solteiros não se mostrou muito diferente entre os dois grupos. O número de anos em que o indivíduo permaneceu na escola também apresentou freqüências diferenciadas para casos e controles, com os casos apresentando menos anos de escolaridade do que os controles. A freqüência de indivíduos que relatavam ter pelo menos um filho foi aproximadamente duas vezes maior para os casos do que para os controles.

História passada de pelo menos um transtorno mental aumentou em duas vezes o risco de ser um caso de abuso/dependência de cocaína. A dependência de álcool foi o principal transtorno responsável pelo aumento (aproximadamente 13 vezes) no risco de abuso/dependência de cocaína.

A análise dos outros transtornos mentais sugeriu apenas agorafobia como transtorno associado com um aumento no risco de abuso/dependência de cocaína.

Discussão

O principal achado do presente estudo foi o de um efeito bastante importante da dependência de álcool no desenvolvimento futuro do abuso/dependência de cocaína. Esse achado é consistente com outros estudos.

Outros estudos em populações tratadas e não tratadas mostraram que em torno de 80% dos indivíduos com abuso/dependência de cocaína são também dependentes do álcool. Estudo conduzido pelo Epidemiology Comorbidity Survey e que utilizou os critérios do DSM-III para diagnóstico de abuso/dependência de substâncias, mostrou que adultos com história de alcoolismo apresentavam risco 4 vezes maior de desenvolverem transtorno com drogas (abuso ou dependência) no final da adolescência ou início da idade adulta, do que indivíduos que não tinham história de alcoolismo.

Pesquisadores brasileiros (Lopes, 1994) sobre fatores de risco para abuso de drogas em adultos jovens, constatou que indivíduos com diagnóstico de transtorno com álcool apresentavam maior risco de desenvolver abuso/dependência de drogas mais pesadas do que desenvolver abuso/dependência apenas de maconha.

Em contraste com as previsões, não houve aumento no risco de abuso/dependência de cocaína entre aqueles com depressão maior primária. O achado do presente estudo de que indivíduos com história de pensamentos suicidas eram cerca de 3,1 vezes mais prováveis de apresentarem um diagnóstico de abuso/dependência de cocaína sugere uma associação entre quadros mais graves de depressão e este abuso, que podem estar “diluídos” no diagnóstico geral de depressão maior. Esta questão merece ser avaliada com maior cautela em estudos futuros que venham a utilizar o CIDI e os critérios do DSM-III-R.

Os resultados deste estudo apontam, portanto, para a necessidade de um aprofundamento da avaliação do papel da história de dependência ao álcool no desenvolvimento futuro de abuso/dependência de cocaína. De acordo com os autores “se a dependência ao álcool é um fator de risco independente ou apenas um marcador de risco para o abuso/dependência de cocaína, é uma questão que deve ser melhor avaliada em estudos que comparem os tempos em que os eventos ocorreram, possibilitando, portanto, resposta mais embasada de tal questão”. Entretanto, independente da seqüência dos eventos, é fato que a dependência ao álcool está freqüentemente associada ao abuso/dependência de cocaína, e este achado sugere que os programas voltados para a prevenção e tratamento nessa área devem estar preparados para lidar com esta co-morbidade.

Autor: Claudia S Lopes & Evandro S F Coutinho
Fonte: Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas


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