Transtornos mentais como fatores de risco p/ o dependência de cocaina - I
7 Outubro 2008 | Publicado por Editor BRAHA em Medicina & Saúde
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Transtornos mentais como fatores de risco para o desenvolvimento de abuso/dependência de cocaína - I
Introdução
Estudos realizados em diferentes partes do mundo têm mostrado uma associação importante entre morbidade psiquiátrica, particularmente depressão, e uso de drogas.
Entretanto não fica claro o que vem primeiro o transtorno depressivo ou o uso de drogas. Muitas drogas sabidamente têm como conseqüência de seu uso repetido o aparecimento de sintomatologia característica da síndrome depressiva. Por outro lado, vários autores sugerem que o uso de drogas pode significar uma fuga para conflitos. No caso específico do abuso de cocaína, esta diferenciação é mais difícil de interpretar já que se trata de uma droga que possui efeitos antidepressivos por um lado e por outro, leva a sintomas depressivos como conseqüência de seu uso abusivo ou mesmo como conseqüência de sua falta.
Algumas pesquisas indicam que em uma certa proporção de usuários de cocaína, a depressão precede o abuso, sugerindo portanto que alguns indivíduos possam escolher a cocaína como uma tentativa de automedicar sintomas Entretanto, muitos pacientes experimentam uma exacerbação de seus sintomas após utilizarem doses elevadas da droga. Estudos como estes sugerem que a presença de sintomas depressivos pode predispor o desenvolvimento de abuso/dependência de cocaína mais tarde.
No final dos anos 80 uma série de estudos populacionais foi conduzida pelo “National Institute of Mental Health Epidemiologic Catchment Area Program” (NIMH-ECA). Os resultados encontrados mostraram que indivíduos com diagnóstico de abuso/dependência de drogas apresentavam uma prevalência de co-morbidade com outros transtornos mentais de 53%. A co-morbidade com abuso/dependência de álcool também foi bastante elevada, com uma prevalência que ia de 36% entre aqueles com diagnóstico de abuso apenas de maconha, para 61% entre aqueles com história de abuso/dependência de drogas mais pesadas. Outras análises de subamostras retiradas desse inquérito mostraram que “ficar bêbado” com freqüência era o precursor mais importante de uso de drogas para todas as faixas etárias, e que havia um risco dobrado de desenvolvimento de abuso/dependência de drogas em adultos jovens com história precoce de transtornos depressivos ou da ansiedade. Apesar destas pesquisas desempenharem um papel importante no sentido de tornar mais clara a prevalência da co-morbidade entre transtornos mentais e abuso de drogas na população geral, eles quase sempre não fornecem informação sobre a seqüência temporal dos eventos sob investigação, impedindo, portanto, qualquer inferência causal entre transtornos.
No Brasil, estudo caso-controle conduzido em uma amostra de 370 adultos jovens residentes no Rio de Janeiro avaliou o papel de transtornos mentais e abuso/dependência de álcool no risco de desenvolvimento de abuso/dependência de drogas. Esse estudo mostrou que história de dependência ao álcool estava associada com o aumento no risco de abuso/dependência de drogas e que este risco era ainda maior entre aqueles cuja dependência ao álcool ocorria juntamente com a presença de pelo menos um transtorno mental.
Esses achados reforçam a necessidade do aprofundamento das questões voltadas para a distinção de transtornos mentais como primários ou secundários ao abuso/dependência de drogas, tanto para o direcionamento de ações voltadas para o tratamento como para a prevenção deste consumo.
O objetivo deste estudo foi avaliar o papel dos transtornos mentais, dependência de álcool e história de tentativas de suicídio, no risco de desenvolvimento de abuso/dependência de cocaína.
Método
Os casos selecionados para o estudo foram retirados da amostra do estudo original, composta por usuários de drogas localizados na comunidade (Lopes, 1994). Ao todo, foram identificados 201 casos e número igual de controles.
Instrumento
Os dados do estudo foram obtidos através da utilização do Composite International Diagnostic Interview (CIDI), um instrumento estruturado, padronizado e desenvolvido para propósitos epidemiológicos. No presente estudo, a decisão de utilizar o CIDI baseou-se nas seguintes considerações: 1) o instrumento foi desenvolvido de forma a permitir comparações de estudos epidemiológicos realizados em diferentes culturas; 2) o instrumento gera diagnósticos psiquiátricos de acordo com os critérios do DSM-III-R e ele pode ser administrado por entrevistadores leigos e o instrumento já foi traduzido e utilizado anteriormente no Brasil.
Foram consideradas como variáveis de exposição os seguintes transtornos mentais: transtornos afetivos (transtorno depressivo, transtorno afetivo bipolar e distimia); transtornos da ansiedade (agorafobia, fobia social, fobia simples, transtorno do pânico, transtorno de ansiedade generalizada e transtorno obsessivo-compulsivo); abuso/dependência de álcool e dependência de nicotina. As outras variáveis avaliadas como fatores de risco para abuso/dependência de cocaína foram “pensamentos de morte, vontade de morrer, pensamentos suicidas e tentativas de suicídio”. Essas variáveis foram utilizadas como um indicativo da gravidade de depressão.
Foram considerados “expostos” apenas os indivíduos cujo transtorno mental e variáveis relacionadas ao transtorno ocorreram antes do início do abuso ou dependência de cocaína. Portanto, o grupo de “não-expostos” foi constituído por todos aqueles que não preencheram os critérios do DSM-III-R para transtornos mentais e com álcool, ou aqueles cujo transtorno ocorreu no mesmo ano ou depois do abuso/dependência de cocaína. De forma a permitir que casos e controles tivessem a mesma chance de “exposição”, foram considerados controles “expostos” apenas aqueles cujos transtornos mentais em estudo ocorreram antes do início do abuso/dependência de cocaína no caso pareado. No caso das variáveis relacionadas a pensamentos de morte e tentativas de suicídio não houve especificação de data para esses eventos, já que estavam incluídos dentro do diagnóstico de depressão maior, só sendo considerados como “expostos” aqueles que, além de terem respondido afirmativamente a pelo menos uma das 4 perguntas, apresentavam também um diagnóstico de transtorno afetivo antes do início do abuso/dependência de cocaína, como descrito acima.
Idade e sexo foram pareados no desenho. O uso da amostragem por bola-de-neve pareou casos e controles por amizade e também pelas variáveis sociodemográficas. Entretanto, como este tipo de pareamento é difícil de ser avaliado, optou-se por considerar as variáveis sociodemográficas como variáveis de confusão em potencial e por controlá-las na análise. Cada transtorno mental foi analisado tanto como fator de risco para abuso/dependência de cocaína, como uma variável de confusão potencial para o(s) outro(s) transtorno(s) mentais(s).
Autor: Claudia S Lopes & Evandro S F Coutinho
Fonte: Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas
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