Consumo de maconha entre dependentes de cocaína

7 Outubro 2008  |  Publicado por Editor BRAHA em Medicina & Saúde


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A maconha encontra-se entre as drogas mais utilizadas mundialmente, com relatos de consumo desde 2700 a.C _ relatos em diferentes localidades ao redor do globo, em populações sem contato aparente (Schuckitt, 1995).

O uso na população de adultos jovens norte-americanos é estimado em 7%, sendo que, em populações específicas, o índice de consumo chega a ser muito mais amplo, como, por exemplo, 47% entre militares na Califórnia, EUA (Miller, 1995).

Ao mesmo tempo, ao nos aproximarmos do início do século XXI, a dependência e o abuso de cocaína permanecem como grandes problemas de saúde pública em escala mundial, não existindo qualquer indício de que a situação no Brasil seja diferente (Weiss, 1994).

 

Em nosso meio, observamos o crescimento imenso na demanda de tratamento pela população dependente de cocaína (Castel, 1989). Esse fato, mais marcante desde o início da década, tem obrigado a uma adequação extremamente custosa tanto dos conhecimentos sobre a droga e seu tratamento como das opções terapêuticas disponíveis. Nesse contexto, o Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (GREA-IPq-HCFMUSP) implantou, a partir de 1996, um programa de assistência estruturada, fundamentado na abstinência, com características de investimento relativamente baixas (quando comparado ao tratamento em regime de internação) para dependentes de cocaína no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Intervenção Ambulatorial Para Dependentes de Cocaína _ IAC), sob a responsabilidade do Dr. Marcos da Costa Leite.

 

Em nosso serviço, vimos observando a enorme prevalência de transtornos decorrentes do uso de cannabis entre pacientes dependentes de cocaína, constituindo-se na segunda comorbidade mais importante nessa população, com prevalência de 33% (menor apenas que o álcool, com diagnósticos de síndrome de dependência em 60% da população de dependentes de cocaína em tratamento) (Leite, 1996).

 

O diagnóstico do uso de outras drogas entre dependentes de cocaína tem importante impacto na etiologia, no diagnóstico, no prognóstico, no tratamento e em suas conseqüências. Todos esses aspectos podem ser limitados se não for considerado o uso abusivo de outras drogas, dentre elas a cannabis (Miller, 1989).

 

Muitos dependentes de cocaína diagnosticados pela DSM-III-R costumam apresentar consumo freqüente de álcool e cannabis antes de iniciar o uso de cocaína (Miller, 1989; O’Malley, 1985). A maioria desses dependentes busca alguma forma de tratamento por admitirem problemas somente com o uso abusivo de cocaína, sem, no entanto, reconhecerem a participação do consumo de outras drogas e álcool na gênese das complicações que apresentam (Miller, 1990).

 

O diagnóstico do uso de apenas uma droga pelo paciente em tratamento por dependência de cocaína, freqüentemente é incorreto e ilusório. Com isso, o tratamento desses pacientes pode ser comprometido, pois se o uso de outras drogas não for diagnosticado, tanto a chance de sucesso na promoção da abstinência quanto a probabilidade de o indivíduo se abster do consumo se torna reduzida. A imensa maioria dos pacientes dependentes de cocaína necessita de abstinência total de todas as drogas com potencial de causar dependência. Experiências clínicas evidenciam que o uso de álcool ou de outras drogas por indivíduos abstinentes de cocaína aumentam as chances de uma recaída (Miller, 1990).

 

Miller, em 1989, num estudo com 150 pacientes dependentes de cocaína, verificou o uso de cannabis em 51% (76) e, em relação ao padrão de uso, a quantidade utilizada foi de 1 a 3 cigarros ao dia, com freqüência de 3 a 4 vezes por semana. Desse modo, espera-se que também em nosso meio uma porcentagem significativa de dependentes de cocaína continue a fazer uso de maconha, devido à busca de efeitos prazerosos, utilizando outra droga mais acessível (na ausência da cocaína), para amenizar os efeitos indesejáveis da abstinência da cocaína, como ansiedade e agitação (Washton, 1989), ou ainda pelo fato de a dependência da cannabis ter-se instalado anteriormente à dependência da cocaína (Miller, 1989).

 

O consumo de maconha produz como efeitos principais alterações do humor, reações tóxicas e ansiedade importante. Esses fatores são de intenso prejuízo ao processo terapêutico a que o paciente dependente de cocaína se submete, comprometendo em muito a sua efetividade.

 

Não abordar outras drogas de consumo é erro e causa de falha terapêutica para dependência de cocaína (Washton, 1989). Essa norma garante a maior margem de segurança para o paciente diante do potencial para recaída:

 

• O consumo de qualquer substância psicoativa costuma desencadear necessidade e fissuras intensas pelo consumo de cocaína que freqüentemente acarretam o consumo.

 

• Qualquer efeito sobre humor ou nível de consciência provocado pelo consumo dificulta a resistência do paciente ao consumo posterior de cocaína.

 

• Outras drogas podem produzir efeitos subjetivos intensos que podem levar à substituição da dependência.

 

• O consumo de outras substâncias pode dificultar a recuperação bioquímica cerebral, alterada pelo consumo de cocaína e outras drogas.

 

Na Intervenção Ambulatorial para Dependentes de Cocaína (IAC), introduzimos a realização das análises com o objetivo de avaliar a confiabilidade do consumo prévio recente de cocaína em todos os pacientes durante todo o período de seguimento dos ingressantes no programa terapêutico. As análises têm também papel essencial na avaliação de efetividade do tratamento, sendo avaliado conjuntamente com relato de consumo prévio e aplicação da escala Auto-ESA _ Escala de seguimento da pacientes farmacodependentes _ versão de auto-aplicação. As análises são realizadas no Laboratório de Toxicologia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, sob responsabilidade do Prof. Dr. Ovandir A. Silva, também autor do presente trabalho.

 

Existem, porém, na literatura, divergências quanto à confiabilidade do relato do paciente em relação ao próprio uso da droga. Estudos têm demonstrado que pacientes têm apresentado comportamentos diferentes em relação ao relato de consumo de drogas no seguimento do tratamento (Zanis, 1994; McNagny, 1992). Com essa finalidade, a análise toxicológica da urina tem sido indicada como uma forma concreta de avaliar a confiabilidade do relato de consumo de drogas.
1 Pós-graduando da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo.

 

2 Farmacêutico responsável pelo LAT _ Laboratório de Análises Toxicológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo.

 

3 Subsecretário (Tratamento e Prevenção) do SENAD, Secretaria Nacional Antidrogas, Brasília. Coordenador do IAC _ Intervenção Ambulatorial para Dependentes de Cocaína do GREA _ Grupo Multidisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do IPq-HC da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Autor: Silvia Akemi Odo1, Adriano C. Araújo1, Alessandra F. Dos Santos1, Fernanda C. P. Toledo1,
Fonte: Revista Brasileira de Psiquiatria Clínica


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